“Ora, isto - ele subiu - que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?”.

É comum ouvir em pregações que Jesus quando de Sua morte, aproveitando os três dias de Seu sepultamento, desceu até as regiões inferiores da terra e pregou a “espíritos em prisão”. Muito se ouve falar a respeito de quem os tais “espíritos”.

Ora, se Jesus foi e pregou a tais espíritos como pregadores alegam tratar de pessoas que não tiveram a chance de receber a Cristo antes do tempo da graça – dentre outras asseverações – então, como responder a questionamentos como o rigor de juízo final dito pela própria boca de Jesus sobre Corazim, Betsaida, Tiro, Sidom, Cafarnaum e Sodoma? (Mateus 11:21-24).

Estudando a respeito me deparei com a argumentação do dr. D.M. Lloyd-Jones a respeito, em seu livro intitulado: A Unidade Cristã. Desejo compartilhar, pois, creio que muitos serão abençoados e obterão maior conhecimento a respeito de tão intrigante passagem.

A partir do texto de Efésios 4:19 que diz: “Ora, isto - ele subiu - que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?”.

...Chegamos agora à afirmação que se evidenciou ser mais difícil na história da interpretação – “que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra”. Como sabem os que têm conhecimento da história da Igreja, a expressão “às partes mais baixas da terra” tem provocado muita discussão e tem levado à proposta de certas doutrinas. Têm sido sugeridas muitas explicações dela, das quais não podemos tratar exaustivamente. Mas, devemos dar uma olhada nalgumas delas, porque são repetidas irrefletidamente por muitos cristãos. Nas igrejas em que é costume recitar credos, as pessoas recitam domingo após domingo a frase. “Ele desceu ao inferno”.

Bem, podemos inquirir quantas delas sabem exatamente o que querem dizer quando fazem isso. Baseia-se numa exposição particular desta declaração de Efésios 4, e como nos compete prestar culto inteligente, somos forçados a examinar a exposição desta frase em particular.

1) Alguns têm sustentado que é uma referência ao nascimento do nosso Senhor, da Virgem Maria, que Ele nasceu “do ventre da virgem”. Há algum apoio para essa opinião no Salmo 139, versículos 13-15: “pois possuíste os meus rins; entreteceste-me no ventre da minha mãe. Que te louvarei, porque de um modo terrível, e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado, e entretecido como nas profundezas da terra”.

2) Outros dizem que as palavras de Paulo fazem referência ao túmulo. “Terra” é a terra – argumentam eles, porém, “as partes mais baixas da terra”, indicando algo que está abaixo do nível do solo, devem, portanto, ser o túmulo.

3) Outros que vão mais longe ainda, dizem que as palavras em questão se referem ao inferno. O inferno embaixo, o céu em cima; assim, a frase “as partes mais baixas da terra” é uma referência ao inferno ou ao Hades.

Com relação às duas primeiras sugestões, tudo o que necessito dizer é que, obviamente, no Salmo 139:15, a referência é a algo que aconteceu na terra; certamente não aconteceu em lugares profundos da terra. O homem não é formado nalgum buraco ou poço nas profundezas da terra. Trata-se simplesmente de uma frase pictória que descreve como o homem é produzido no ventre da sua mãe.

Portanto, não há referência a descer num sentido físico ou material. O mesmo se aplica, naturalmente, ao túmulo. A interpretação que nos é importante considerar é a terceira, pois é a que tem figurado mais proeminentemente na história da Igreja e na história das doutrinas.
Há, digo, aqueles que crêem que as palavras de Paulo ensinam que o nosso Senhor, depois de Sua morte e Seu sepultamento, desceu ao inferno e fez coisas, em particular que Ele derrotou ali o diabo e suas hostes.

Outros dizem que o que Ele fez no Hades foi pôr em liberdade os santos do Velho Testamento que tinham sido mantidos numa espécie de cativeiro desde a sua morte. O nosso Senhor, dizem eles, desceu, tirou-os e os fez subir com Ele.

Outros acreditam que o que o nosso Senhor fez quando desceu ao inferno foi proclamar a salvação a certas pessoas que estavam lá. Eles baseiam essa idéia, não somente neste texto, e sim também no que vemos na Primeira Epístola de Pedro, capítulo 3: “Porque melhor é que padeçais fazendo o bem (se a vontade de Deus assim o quer), do que fazendo o mal. Porque Cristo também padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificando, na verdade, na carne, mas vivificado no Espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água” (v.17-20). A frase importante é “pelo Espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão”. Isto sustentam eles, só pode ter o sentido de que o nosso Senhor, após Sua morte e sepultamento, desceu ao inferno e lá pregou o evangelho aos que foram destruídos no Dilúvio dos dias de Noé, com o fim de conceder-lhes “uma segunda chance”, outra oportunidade para arrependimento e fé.

Há alguns que vão além e ensinam que haverá “uma segunda chance” e mais uma oportunidade para todos depois desta vida, no Hades. Das explicações sugeridas, da expressão “as partes mais baixas da terra”, essa é a mais popular.

É a mesma explicação que aquela dada sobre 1 Pedro 3:19, a saber, que é uma indicação de que o nosso Senhor, depois da Sua morte, foi pregar àqueles “espíritos em prisão”, ou foi evangelizá-los.

Outra explicação é que o que o nosso Senhor fez não foi pregar o evangelho a eles no sentido de que lhes estava dando oportunidade para crerem, porém, que Ele desceu e proclamou a Sua retumbante vitória sobre o diabo e o inferno a todos os habitantes e hóspedes do inferno. Ele lhes disse como tinha vencido todos os inimigos de Deus, em toda parte, e que Ele era Senhor sobre todos.

São essas as declarações que se fazem de tempos em tempos, ao longo da história da Igreja.

Minha concepção da obra da pregação e ensino é que devemos encarar estas questões francamente, e não esquivar-nos delas ou deixá-las sem consideração, porque obviamente esta expressão tem algum significado. Minha opinião é, pois, que ela não tem nenhum desses sentidos, mas que o sentido da frase, “as partes mais baixas da terra” é simplesmente a terra mesma. Digo isso pelas seguintes razões:

- Como sugeri a afirmação do Salmo 139, versículo 15, obviamente significa a terra. Quando um homem nasce e vem a existir, entra na vida da terra, embora a expressão do salmista seja “nas profundezas da terra”. Uma expressão similar no Salmo 63:9, pode ter o sentido de “o túmulo”, mas, de novo, é muito incerto.

A questão crucial, contudo, é a exposição de 1 Pedro 3:19. Estará o apóstolo Pedro dizendo que o nosso Senhor foi pregar aos que tinham sido destruídos no Dilúvio do tempo de Noé?

Rejeito essa explicação perguntando: por que lhes seria dada uma “segunda chance” ou oportunidade, mais do que a todos os outros pecadores?
Por que haveriam de ser eles os únicos a quem Ele pregou?
Nas gerações anteriores houve muitos que tinham pecado antes dos que viveram na época do Dilúvio; e houve miríades que pecaram desde aquela época; por que, pois, só a eles foi dada mais uma oportunidade?
Por que não também ao povo de Sodoma e Gomorra?
Por que não a muitos outros que foram mortos e destruídos repentinamente pela ação de Deus?
Por que aqueles foram separados?
Os que ensinam que o nosso Senhor pregou no Hades àquelas pessoas, não têm resposta para estas perguntas. A situação delas, como pecadoras, não é diferente da situação de todos os demais pecadores. A verdade dessa questão é que o apóstolo Pedro não está dizendo tal coisa. Nesta parte da sua Epístola, Pedro está lembrando aos seus leitores que eles estavam vivendo num tempo de juízo.

No capítulo subseqüente ele diz: “Já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus”. Ele os está advertindo da vinda do juízo e lhes diz que há somente um modo de serem salvos, o modo que ele menciona nos versículos que se seguem. Lembra-lhes ele que Noé e sua família foram salvos por meio de uma arca; e lhes diz que nós somos salvos por um similar do tipo de arca, a saber, pelo batismo em Cristo. Em Cristo, que é a nossa Arca, somos salvos.

A afirmação de Pedro é que a situação dos cristãos é similar à situação que prevalecia imediatamente antes do Dilúvio. Cristo está falando no Espírito por meio dos apóstolos (Pedro e outros), e está exortando o povo de Deus e outros a “fugir da ira que está para vir”.

Ele tinha feito precisamente o mesmo, “no Espírito”, por meio de Noé, antes do Dilúvio. Há somente dois grandes julgamentos universais na história da humanidade – o primeiro foi o Dilúvio; o segundo será quando o Senhor vier de novo, e os elementos se fundirão com o tremendo calor do juízo final. Assim Pedro está dizendo que há um paralelo entre os que estão vivendo na época e era anteriores ao segundo grande julgamento e os que viveram antes do primeiro grande julgamento. O paralelo é perfeito: Cristo prega “no Espírito” agora por intermédio dos apóstolos, como pregou “no Espírito” naquele tempo por intermédio de Noé àquele povo antigo. Esta não é somente a exposição verdadeira; é a única que evita a idéia de que o evangelho foi pregado somente a certos pecadores particulares e não a todos.

Segue-se, pois, que, se nos propusermos a escorar a nossa exposição do versículo 9 de Efésios 4 aduzindo-lhe 1 Pedro 3:19, veremos que não nos dará nenhuma ajuda. Não há prova nenhuma pra dizer-se que o nosso Senhor alguma vez pregou no inferno. É uma suposição, mera especulação, e uma teoria. Não há nada nas Escrituras que a consubstancie, nenhuma palavra que insinue que Ele tenha libertado pessoas que tinham sido mantidas cativas. Não há qualquer indicação de que o nosso Senhor finalmente tenha vencido o diabo e os seus poderes no inferno, depois da Sua morte; na verdade, é-nos dito, positivamente, que essa obra foi realizada na cruz. Paulo ensina no capítulo 2 da Epístola de Colossenses: “E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente” – não “nas partes mais baixas da terra, mas “publicamente” – “e deles triunfou em si mesmo” – a saber, em Sua morte na cruz. Foi na cruz que o nosso Senhor bradou, dizendo: “Está consumado”. Nada foi deixado para completar-se no inferno; a obra foi realizada completamente na cruz.


A Unidade Cristã – D.M.Lloyd-Jones – Ed. PES – p. 135-139.

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